quinta-feira, agosto 19, 2010

O amor sem conservantes



Hora da telenovela: onde estão os óculos, pergunta ela e ele com o olhar enevoado
devolve-lhe as próteses com uma carícia
sentida. Sem tocar no assunto remoeram em silêncio os amores e desamores dos outros como se fossem os seus. Beijos abraços tiros mais beijos mais abraços e repete os beijos e ela foge e o outro também a ama menos a má que ama o bom que foi perfilhado pelo tio da má que ama a mulher do amigo que é pai do filho do outro que está a morrer q quer confessar que fez um desfalque mas não morre porque chegou uma mulher misteriosa que sabe o segredo e vai dizê-lo...acaba o episódio, até amanhã, patrocinado pelas cuecas Vitocu, as melhores que se podem comprar se se tiver dinheiro e fica-se muito mais sexy e outras maravilhas que o marketing televisivo e a graça de Deus oferecem aos contribuintes e eles enfim olham-se, olhar enevoado e prótese ocular, ambos cientes da complexidade do momento, sem alternativa coerente com o presente que vivem, decidem que ir para a cama não lhes trará mais infelicidade do que outra coisa qualquer, como por exemplo ter dificuldade em engulir e não o saber, porque, ou não há nada que se engula, ou são sapos e não pérolas ou outras coisas que desejamos dar e não temos. Estamos de pulsos cortados...não atados, estamos de pulsos cortados desde que trocamos névoas e próteses e só não sabemos que nos suicidamos todos os dias porque há mortos com mais consciência do que é estar vivo que nós zombies, mas enfim, diz ele, eu amo-te, tem cuidado diz ela, olha que me partes os óculos, deixa-me tirá-los, cenas dos próximos capítulos são sempre contrárias à vontade dos participantes no evento. Por isso é que o suicídio é crime!

2 comentários:

relogio.de.corda disse...

A imagem ilustrativa do post é muito gira. Quanto ao assunto novelas (ou telenovelas), é "amor sem conservantes" ou a deturpação do amor?! Parece-me no fundo, que é um pouco disso que passa cá para fora. São essas falsas ideias sobre tão nobre sentimento que confundem crianças e adolescentes e mantém os portugueses, entretidos por umas boas horas em frente à caixinha mágica.

Leiria em Cuecas disse...

O amor é louco, as telenovelas são fast food. É claro que tem o seu público, mas...