segunda-feira, novembro 01, 2010

Um mal nunca vem só



Como qualquer cidadão leiriense que se preza, quando saio para o trabalho, levo o meu carro.

Trabalhe a 100km ou a 200m de casa, o bom leiriense se tiver carro, usa-o. Ou se é ou se não é. Isto sendo uma La Palissada à maneira, não deixa de ser verdade. Tenho um amigo que diz que o cérebro dos condutores é inversamente proporcional à potência das "bombas" que conduzem. Ou se é ou não se é. Se multiplicarmos, agora- numa operação só possível graças às novas tendências da Matemática e a uma boa dose de imaginação criativa - o número de carros a circular em Leiria x o número disparatado de obras ( camarárias, particulares, não interessa) o resultado é uma porradaria de tempo em filas que percorrem 1 km em 45 minutos e que impedem qualquer veleidade aos veículos prioritários ( bombeiros, inem, etc) de serem rápidos a actuar em caso de necessidade ou aos transportes colectivos de terem qualquer coisa semelhante a um horário e servirem de alternativa à população, embora aqui na urbe isso não pareça incomodar muito os gentios, que seriam os supostamente mais interessados.

Como qualquer condutor em fila, ouço rádio para me tentar distrair, o que nunca aconteceu, dado que as rádios têm normalmente o condão de irritar-me. À música quase sempre fatela e repetida até à exaustão em todas as estações, juntam-se comentadores escolhidos a dedo para meter nojo, e noticiários entediantes e bastas vezes manipuladíssimos nos temas, e no modo como eles são tratados. Da condução à depressão é um saltinho, todos somos presumíveis suicidas quando estamos ao volante, assassinos sem remorsos, também, a nossa viatura eleva-nos a um patamar de supremacia sobre todas as bestas com que nos cruzamos, ultrapassamos ou batemos.

Num país de aceleras e rapaziada que gosta de se enfrascar à fartazana, qualquer estrada é um potencial "Poço da Morte" onde se reflete impiedosamente a nossa condição de baixa cultura, de pouca solidariedade e de falta de respeito por nós e pelos outros. Com um povo assim, como esperar por melhores dias? Dizer mal dos políticos em geral e daqueles que nos lixam em particular é um pecado comum em quem se esquece que eles são o nosso reflexo, estão lá com o nosso acordo, representado pelo voto, e muito mais pelo não voto - o "estou cagando para isso" que legitima tudo e mais alguma coisa - normalmente alardeado com a arrogância do que Bertolt Brecht designou como "analfabeto político", o pior dos analfabetos.

Por isso, às nossas elites, no fim de contas o prolongamento previligiado deste povo, todos nós, cidadãos em longas filas de transito por tudo o que são estradas ou caminhos, esventrados por incontáveis trabalhos de reparação nunca terminados, devemos exigir que dêm o exemplo e que, na condução deste país, pelo menos, não bebam!!


Vosso, Redfish


ps - O Alberto João, se soprasse no balão sempre que discursa, estava cheinho de multas e proibido de falar por mais de 100 anos

1 comentário:

relogio.de.corda disse...

Gostei do seu texto. Muito bom!!!!