quarta-feira, dezembro 28, 2005

FELIZ PÓS-NATAL


Prezados Blogueiros, olá.
Depois de umas bem merecidas e efusivas vacanças natalícias eis-nos de volta.
Nós descansámos mas o país não. Neste pequeno torrão à beira-mar plantado e depois transplantado em vários outros continentes, com outros mares e outras gentes, o pulsar da vida continuou, mesmo sem nós. Não com a mesma qualidade de vida , mas continuou.
Sem dúvida que além do Pai Natal, mais 5 personagens têm ocupado, uns mais do que outros, é verdade, porque quem controla os meios de comunicação e (des)informação assim quer e assim o exige, mas na medida em que esse tão "democrático" procedimento o permite, todos eles tentam fazer-se ouvir (há também quem tenha optado por se fazer só ver, pois sempre que abre a boca perde votos) e isso são estratégias de campanha, tão pensadas e rebuscadas que nós só muito dificilmente seremos capazes de entender como elas funcionam e como as nossas mentes condicionadas por tantos anos de xaropadas televisivas são por elas afectadas.
Eu cá, no entanto, e mesmo não sendo comentador encartado, que esses pagam-se bem, são todos suprapartidários, mesmo os que são do PSD ou fazem parte da Comissão de Honra do Cavaco, e sabem todos muito sobre todos os assuntos, tão inteligentes eles são que até aborrece, dizia eu então sobre mim, que embora não seja nada dessas coisas, pois eu cá sou partidário, e devo ser muito burro porque apoio o candidato de quem eles dizem pior, e que não tem hipótese nenhuma, e outras coisas do género, só falta dizerem que não gostam dele porque ele diz mal deles, o que até não é verdade, e tem sido para mim um ponto fraco da candidatura, deviam aproveitar o tempo de antena para desancar essa cambada de lambe-botas sem vergonha, viciados em distorcer a realidade, tanto ,tanto, que em fases do discurso já não sabem se falam da realidade ou do mundo paralelo que inventaram, e que tem sidos os verdadeiros promotores do discurso que a múmia cavaquista não diz, para além da cassete rscada de " Os Portugueses conhecem-me...os portugueses conhecem-me...os portugueses conhecem-me...". Alguns ó Totó, é o que apetece dizer, eos que te conhecem não votam em ti nem mortos, eh!eh!eh!
Mas, o que interessa é a minha apreciação ao desempenho dos senhores candidatos ao mister de presidente desta nossa pequena mas singela república.
1- Mário Soares- Porta-se como se fosse o dono da casa. Só lhe falta o roupão e os chinelos para se sentir mais à vontade. Trata os outros candidatos como uns pequenos traquinas que querem ursupar o que é dele ( pensa ele ) por usufruto, e até se permite a ralhar com eles quando não gosta do que dizem, quando lhes tenta mostrar como se gere o condomínio.
2- Cavaco Silva- Este é o candidato que tem de ganhar nem que seja preciso por o Tejo a correr para a nascente. É um lobo que veste a pele de cordeiro, e por isso não fala, porque a voz o trairia.
Pode ser conhecido tambem por Aníbal das Brumas, tão espesso é o nevoeiro que esconde as suas verdadeiras intenções. O Hino da campanha é explícito desse ponto de vista e bastante piroso.
3- Manuel Alegre - É bom rapaz, e segundo ele, justo, fraterno e solidário. Sempre o foi nestes 30 anos que leva como deputado do PS na Ass. da República. Chateou-se agora um pouco com a falta de solidariedade dos que têm sido justos e fraternos com ele durante estes anos todos, e apresenta-se como suprapartidário, tal como os comentadores encartados, só que é muito mais inteligente e honesto que eles. Candidata-se não conseguindo explicar muito bem porquê, mas leva com ele muita rapaziada de esquerda que cresceu a ler os seus poemas, e estão convencidos que levam um poeta a Belém.
4- Jerónimo de Sousa - Os comentadores encartados têm trabalhado imenso na menorização desta candidatura, que de menor só tem o tempo de antena, comparativamente com a dos candidatos protegidos pelo sistema. Tem a sua fraqueza no que lhe garante a sua força ( paradoxo meio parvo que eu para aqui arranjei). O apoio do PCP com a sua história recente de dissidências e exclusões que comprometem a aparente sensibilidade pluralista que ele tem demonstrado ao longo da campanha. O PC deve ter contratado novos e bem melhores assessores de imagem porque o homem aparece bem vestido, substituindo os horríveis pull-overs por fatinhos de bom corte e de óptimo gosto. A boa imagem não consegue esconder o velho moralista ( viva a moral proletária) que há em cada comuna, como quando Jerónimo de Sousa tomou posição sobre a prostituição. Parecia um testemunha de Jeová.

5 - Francisco Louçã - Pronto, eis-me completamente rendido às qualidades e ao discurso de Louçã. É verdade que sou suspeito. Ligam-me a este candidato várias cumplicidades e à muitos anos que andamos pelos mesmos trilhos. Mas não devo deixar que isso me impeça de dizer o que tem saltado à vista de quem tem seguido a campanha eleitoral e viu os debates. Por isso acho incrível o que na comunicação social os ditos comentadores encartados suprapartidários e alguns muito legitimamente partidários têm dito e feito para diminuir, enxovalhar, enfim ocultar aos olhos dos eleitores aquilo que foi claro em todos os debates: Louçã é de longe o candidato melhor preparado de todos, que revelou estar mais atento às novas prioridades para Portugal, que não se refugiou em generalidades nem se esquivou a discussões sem medo de ser confrontado com algum rabo de palha que porventura possa ter, foi eloquente, didactico, afirmativo e assumindo as suas posições e atacando os seus adversários de uma forma firme mas correcta. Resumir o que fez Louçã reduzindo as suas qualidades à sua já reconhecida capacidade oratória, é tentar tapar o Sol com uma peneira. Como se um discurso pudesse ser valorizado apenas em função do como é dito, sem que o que é dito tenha importância. Não esteve ali um actor com um papel decorado e a dizer coisas ao sabor da vontade dos outros, porque é políticamente correcto e dá para sacar uns votos. Esse papel fica muito melhor entregue a Cavaco Silva. O que há em Louçã que tanto os incomoda é a confiança que demonstra quando fala, a frontalidade com que se expõe, é o empenhamento de quem sabe do que fala, e não tem razão nenhuma que o impeça de falar. Eles, sabem disso, e à falta de melhor inventatram outra: Louçã seria o novo Cavaco, o Cavaco da esquerda. Boa tentativa. Mas não pode ser à custa de Louçã que eles queiram melhorar o estatuto do Dr Cavaco. Nada mais longe disso. É que para começar a anotar diferenças, Louçã não diz "os portugueses conhecem-me, eu sou o maior", tem sempre dito e redito, vamos partir para outra, vamos aprender todos juntos a fazer um Portugal melhor. Essa é a diferença. E Francisco Louçã merece que o conheçam melhor.

Esta foi a minha modesta contribuição para a causa presidencial, e para que o verdadeiro debate comece aqui e já no nosso estendal de cuecas e outras interioridades. Em Leiria, que este ano não está tão exuberante em luzinhas de Natal como o ano passado. Mesmo assim gasta-se uma pipa de massa e continua a ser uma foleirice. Um exemplo engraçado vem de Porto de Mós. Umas letras singelas junto ao Castelo: Festas Felizes ou algo no género. Eficaz, simples, barato e muito menos piroso que o costumeiro arraial em que se transformam algumas das nossas ruas.

REDFISH



10 comentários:

P.A. disse...

eu a pensar que estava a ler um texto com piada e, chegamos ao fim, borramos a pintura toda... :)

Dama Pé de Cabra disse...

TóTó e Companhia ou uma Comédia Neo Realista Portuguesa

Caro P.A. ninguém é perfeito, todos temos deslizes...alguns pequenas escorregadelas, outros autênticas avalanches de incongruências!

Em todo o caso e porque falamos dos nossos 4 magníficos, e pondo de lado os outros aspirantes a magníficos dos quais não reza a história, temos que convir que são indivíduos antes de serem candidatos, com as suas virtudes e defeitos, o ideal seria juntar características de todos que gostamos e criar o candidato perfeito, mas a verdade é que alguns teriam forçosamente de ficar de fora...é que há alguns que por mais que procure não lhes encontro nada de positivo....juro que não estou imbuída da tendência natural de projectar na avaliação o meu próprio sistema de valores que me determinaria uma avaliação parcial...estou a tentar avaliar a competência, motivação capacidade de relacionamento interpessoal, no fundo a interpretação desta comédia comédia drmática intimista que parte do individual para falar do colectivo...o presidente ideal deverá ser um mobilizador de massas, um gestor competente e um firme defensor dos interesses de Portugal à escala Internacional... os candaitos têm de cnvencer e inspirar confiança ao comum dos cidadãos...à partida, na minha humilde opinião o único mérito e pela negativa de Cavaco, é que está há tempo suficiente afastado da política para as pessoas não se lembrarem da sua política ruinosa - sendo apoiado por dois partidos políticos que reflectem a vontade de grande parte do eleitorado português, consegue estar no estado de graça pela omissão de actividades nos últimos tempos e pelo suporte que tem.
Mário Soares, ou a crónica do bom malandro, toda a gente sabe que é vigarista e elitista mas as pessoas não conseguem deixar de simpatizar com ele....e lá vem o mérito deste velho político- o carisma- alguém já ouviu falar disso? no fundo faz com que as coisas mais absurdas tenham lógica ditas por tal ou tal pessoa.
Manuel Alegre...dei voltas à cabeça, voltas à cabeça, e o único mérito que lhe encontrei é ser um candidato de esquerda. Tal como o primeiro analizado, as características abonatórias são extrínsicas e não intrínsecas..é desastroso num debate, não tem carisma, deveria ficar pelo palavra escrita e sob a forma de poema...
Jerónimo de Sousa tem uma pequena dose daquilo que Soares tem em grande dose-carisma-se tal não fosse como seria possível que toda a gente mais ou menos simpatize com o sujeito embora as suas palavras sejam repetitivas? porque será que depois de o ouvirmos falar sobre a prostituição e o conceito de soberania continuamos a simpatizar com o raio do sujeito? também concordo com o aspecto referido pelo RED quanto á parência do candidato....eleito por mim o mais bem vestido candidato...
Francisco Louçã, diria eu que seria o candidato perfeito se não fosse o ar extremamente sério...com razão lhe chamou o Miguel Sousa Tavares teleevangelista...se perguntarmos ao cidaão comum o que acha dele, todos são unânimes em realçar a sua capacidade oratória, a sua firmeza, o seu conhecimento da economia...o que temem? essa "gajada" da extrema esquerda que está por trás dele (suspiro) diria que ao nosso candidato falta uma pitadinha do tal carisma e mais uns debates televisos, os ventos da mudança começariam a soprar....

REDFISH disse...

Caro p.a., o caso é que eu não pretendo ter piada, àparte da que deriva da forma como alinhavo o que escrevo.Este país não será propriamente um dos que mais motivos terá para rir nos próximos tempos,e pelo que já vemos anunciado muitos portugueses vão sentir problemas sérios em conseguir sobreviver com alguma dignidade. Por isso não me interessa ter piada. Quem se quiser rir tem por aí os piadéticos do costume, inócuos quanto baste, brejeiros, populares, há para todos os gostos.
Eu há muito tempo que aprendi a rir de mim próprio, mais do que dos outros. Além do mais, borrar a pintura é um óptimo passatempo, principalmente quando nos pintam tudo de cor de rosa e nós sabemos que é para tapar o cinzento e até o negro do cenário.
Não pretendi mais nada com o que escrevi, que marcar uma posição contra o "consenso mole" que está instalado e vem sendo notóriamente ampliado pelos media. Poderá não ser do agrado de quem o ler, e é manifestamente pouco como ajuda a este combate contra o cinzentismo clientelista que domina a nossa imprensa, escrita e falada. Mas já está cá fora!

Dama Pé de Cabra disse...

ESTÁ A CHEGAR AO FIM ESTE ANNUS HORRIBILIS, ESPEREMOS QUE O PRÓXIMO NÃO SEJA TÃO MAU, PORQUE BOM NÃO PODERÁ SER DE CERTEZA...ESTAMOS CADA VEZ MAIS PRÓXIMOS DAS PRESIDENCIAIS, PENSEM BEM NO QUE PRETENDEM PARA O PAÍS PORQUE SE Fôr CONTINUISMO PODEM VOTAR À VONTADE NO CAVACO...APROVEITO PARA PEDIR, OLHOS NOS OLHOS, AOS POUCOS ILUMINADOS QUE AQUI ENTRAM PARA APARECEREM NO DIA 4 DE JANEIRO NO RESTAURANTE " A GRELHA" PARA O JANTAR COMÍCIO COM FRANCISCO LOUÇÃ...O NOSSO CANDIDATO PRECISA DO TEU APOIO!

tromba rija disse...

Cadê os teus olhos,pé de cabra??? acho que falta colocares aqui uma palavra de ordem,assim :EU SOU FÂ DO FRANCISCO LOUÇÂ, e já agora gostaria de saber a cor dos teus olhos...

Dama Pé de Cabra disse...

Em primeiro lugar não sou fã do Louçã como dizes....isso cheira-me a artista de música Ró e Cassete Pirata e a meninas histéricas....quanto aos olhos que estão aqui em causa são os olhos do Louçã
que não são
Olhos azuis são ciúme
e nada valem para mim
Olhos negros são queixume
de uma tristeza sem fim
olhos verdes são traição
são crueis como punhais
mas sim
olhos bons com coração
os teus castanhos leais

despeço-me com um olhar o mais caprino possível

Dama Pé de Cabra disse...

Cavaco Silva recusa divulgar lista dos seus principais financiadores
05.01.2006 - 15h17 Lusa, PUBLICO.PT



Cavaco Silva recusou-se hoje a divulgar a lista dos seus principais financiadores, alegando que essa é uma tarefa do Tribunal Constitucional (TC).

"A lista será divulgada depois pelo Tribunal Constitucional", afirmou Cavaco Silva, em Rio Maior, à margem de uma acção de campanha, quando confrontado com os desafios lançados pelas candidaturas rivais.

Para Cavaco, "só os candidatos que não conhecem a lei é que dizem que não sabem de onde vêm os financiamentos". "A lei diz quanto é que cada um pode contribuir", sublinhou, lembrando que "são passados recibos" aos doadores que os candidatos têm de apresentar no TC.

"Nós vamos cumprir a lei, vamos prestar todas as contas", garantiu.

Questionado sobre se sabe quem são os principais contribuintes da sua candidatura, Cavaco Silva respondeu: "Não sei. Todos os dias pessoas vão às sedes de candidatura e dizem que querem ajudar", afirmou.

De acordo com o orçamento entregue no TC, a candidatura de Cavaco Silva planeia gastar cerca de 3,7 milhões de euros (perto do máximo permitido por lei), sendo dois milhões de euros provenientes de contribuições individuais.

No início da semana, Cavaco Silva garantiu não ter recebido financiamento de nenhum partido, ao contrário do que acontece com a maioria dos seus adversários. Em resposta, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa instaram Cavaco Silva a divulgar a origem dessas contribuições, um desafio que o dirigente socialista Jorge Coelho levou ontem mais longe.

"Se os financiadores da campanha de Cavaco Silva são todos anónimos e simples [como afirmou o candidato], então que publique os 500 nomes que deram maiores donativos. Queremos saber se realmente é gente simples ou pessoas de outra natureza", declarou Coelho, durante uma intervenção no jantar-comício da candidatura de Mário Soares em Almada.

Dama Pé de Cabra disse...

Louçã com críticas a Cavaco


Francisco Louçã está confiante na derrota de Cavaco Silva nas presidenciais de 22 de Janeiro.


06-01-2006/00:52


Na Barreiro, Louçã chamou a Cavaco "o homem do défice".

"Há sempre aquela solução: o défice. O défice é economia, o défice é sociedade, o défice é o resumo da forma como nós vivemos, é a política que impõe a economia, que determina a política, que escolhe a sociedade. Era isso que eu me lembrava quando falava com os homens e mulheres que encontrei hoje nas ruas em Setúbal. Eles, no entanto, estavam-me a lembrar que a economia, o défice, a sociedade, as dificuldades", disse.

O problema é o desemprego. Era impossível não o referir no distrito de Setúbal, o mais afectado por este flagelo.

Antes, o bloquista Fernando Rosas lembrou que há um desempregado em cada esquina, de dedo apontado a Cavaco, que foi Primeiro-ministro.


Link desta notícia:

Esta notícia foi impressa a partir do Site da Rádio Renascença Online

Dama Pé de Cabra disse...

Vai só a parte do artigo com que concordo...aqui o nosso amigo a certa altura entusiasmou-se!


Presidenciais – a direita dividida



Vai para dois anos que Cavaco, escaldado com a derrota de há 10 anos, começou a gerir o tempo de lançamento da sua candidatura à Presidência da Republica . A servil comunicação social portuguesa, pressurosa, acorria à convocação e trombeteava, urbi et orbe, o banal comentário como se de ideia profunda se tratasse, comentava o simples artigo com um alarido despropositado, não fora tudo fazer parte da longa, meditada e programada manobra. Pretendia-se criar a ideia do distanciamento que a docência propicia e iludir a realidade: a declaração de retirada para a docência em 1996, depois da humilhante derrota nas presidenciais, escondia mas não esbateu a desmedida ambição de poder do omnisciente professor. A direita, parecia, tinha encontrado o candidato a apoiar, sem que este necessitasse de assumir a candidatura.

Ao longo de dois anos procurou-se adoçar a indisfarçável arrogância, esquecer as gravíssimas lacunas culturais, apresentando Cavaco Silva como o salvador da crise de que ele foi o primeiro e um dos principais responsáveis. Tentaram vende-lo como a última essência da competência, esbatendo as suas imensas responsabilidades, enquanto primeiro ministro, no aumento do desemprego (mais de 400.00 desempregados), do déficit das contas públicas que em 1993 chegou aos -8,9%, das falências sem conta que então se verificaram, da instabilidade criada no emprego com a Lei da sub-contratação, etc, etc.

Será preciso lembrar forma como Cavaco Silva passou o testemunho a Fernando Nogueira quando viu que a vitória do PS de Guterres (também de má memória) era irreversível, a sua relutância a disputar as eleições presidenciais em 1996, para que foi muito empurrado e a contragosto, e na qual sofreu esmagadora derrota?

A forma arrogante e autoritária como sempre se comportou e a forma como os seus apaniguados o tentam agora apresentar esconde a tentativa de passar para Belém, institucionalmente ou de facto, a política de direita da responsabilidade do PSD e do PS, desde o I governo constitucional. A candidatura de Cavaco Silva, pelas ideias subjacentes e por apoios que já concitou até antes de ser assumida, só pode perspectivar um período de instabilidade e conflituosidade com o governo, de que a principal vítima será o povo português.

Enquanto Cavaco Silva preparava a sua putativa candidatura, o PS, multiplicando o lançamento de nomes como se de pães se tratasse, todos eles passados pelo funil da fidelidade à política neoliberal, aos ataques ao estado social e ao balancear submisso aos interesses imperialistas, afastou a possibilidade de candidatura de um cidadão português, maior de 35 anos e no pleno uso dos seus direitos, de esquerda, que enfrentasse e derrotasse a direita nas eleições presidenciais. Mesmo que esse cidadão fosse socialista ou da área ideológica do PS.

Sem nome credível avançado, num processo indecoroso, lançaram a lebre Manuel Alegre, enquanto no segredo dos gabinetes, Sócrates e Mário Soares acordavam os trâmites da manobra que levou este último a decidir o que há muito tinha pensado: o candidato sou eu!

Os mídia logo sentenciaram: a esquerda já tem o candidato capaz de enfrentar, e eventualmente derrotar, Cavaco Silva.

Pura mistificação, trata-se de dois candidatos da direita, pelo passado, pelas opções e pelos apoios, alguns comuns, que congregam no poder económico. Mário Soares foi o líder da contra-revolução, transformando o PS no guarda-chuva protector de toda a direita que procurasse abrigo. Aliou-se a Spínola formando, na opinião de Álvaro Cunhal "uma das mais estáveis e duradouras alianças político-militares do processo contra-revolucionário". Logo no 1º Governo Provisório, "sempre (me) expôs [a Spínola], com a máxima lealdade, as suas opiniões e me alertou para os perigos [o processo revolucionário, com a ampla participação do povo português que se sabe] que o País estava a correr com base na actuação do PC", tendo tido conhecimento antecipado, se não mesmo participação, no golpe Palma Carlos: reuniu com Palma Carlos, à margem do governo de que fazia parte e sem o avisar como era do seu mais elementar dever de lealdade (que é isso?), tendo-lhe, então, sido exposto o plano golpista de Spínola. Diz que discordou, mas logo acrescenta que isso não pressupunha a sua vontade "de que o general Spínola caísse ou saísse de cena", pois queria aguentá-lo.

Aliás, depois de Spínola ter conspirado, de armas na mão, contra a revolução de Abril (11 de Março de 1975) e ter dirigido a rede bombista que lançou morte e destruição no Portugal de Abril, promove o seu regresso sem julgamento a Portugal e atribui-lhe o cargo de chanceler das ordens!

Renegando expressamente o socialismo, engavetou-o até hoje, promove activamente a divisão do movimento operário e sindical, inicia a recuperação capitalista, incentiva o regresso dos monopolistas que foram o sustentáculo do fascismo em Portugal, inicia a destruição da reforma agrária... Nesta sua cruzada contra o Portugal de Abril, conspira com Frank Carlucci (homem da CIA, onde subiu até subdirector operacional), então embaixador dos EUA em Portugal, chegando ao desplante de o condecorar por serviços prestados à "liberdade dos portugueses" e exigir, há três ou quatro anos, que fosse este seu amigo a entregar-lhe o "Globo de Ouro" que a SIC de Pinto Balsemão (outro do antigamente que é seu amigo) lhe atribuiu.

Seria fastidioso continuar a folha corrida de Mário Soares neste seu combate contra uma verdadeira democracia (política, económica, social e cultural) em Portugal.

Hoje, o PS e a servil comunicação social portuguesa, pretendem apresentá-lo como o candidato da esquerda. Seria cómico, não fossem os perigos dessa mistificação constituir um motivo mais para o descrédito dos generosos ideais de esquerda junto do povo português.

José Paulo Gascão

Dama Pé de Cabra disse...

O SABER COMO PLACEBO

Nuno Nabais

POL nº 5768 | Quarta, 11 de Janeiro de 2006



[Tentando ultrapassar a espuma dos dias e ir para além do que é o debate superficial ou a ausência de debate sobre o país que caracteriza as campanhas, o PÚBLICO desafiou 14 intelectuais portugueses, que normalmente não tomam posição política ou sobre ela não são solicitados pela comunicação social, para darem a conhecer as suas reflexões sobre o país e pronunciarem o discurso que nunca foi feito]

Em Portugal, há muito tempo que as universidades estão vazias por fora. Os Departamentos reproduzem-se em circuito fechado, na monotonia das gerações e das tribos internas. Os concursos só são públicos no momento da abertura. Os resultados são sempre privados. Qualquer candidato externo é suspeito. A endogamia nas nossas universidades públicas é a mais elevada da Europa. Também somos, na Europa, o país com maior percentagem de concursos internos contestados judicialmente. Excessivamente incestuoso, o quotidiano dos Departamentos não pode fazer-se senão de golpes de teatro permanentes. É por isso que, do lado de fora, o deserto não pára de crescer. Gerações e gerações de investigadores nunca chegaram a existir, ou simplesmente desapareceram, sem rasto e sem obra.
No final dos anos 80, Cavaco Silva soube explorar a revolta dos excluídos. Mas para a tornar no golpe mortal da universidade. Por decreto transformou uma população indiferenciada numa nova casta académica. Ao lado das centenas de investigadores talentosos que a blindagem das universidades públicas tinha expulso, surgiram donas de casa com estudos superiores, velhos professores saneados, respectivas esposas, filhos e sobrinhos. Tudo isso foi transformado em catedrático instantâneo nas universidades privadas. Parecia cumprir-se a democratização do saber, como se fosse quebrado o monopólio do conhecimento até então nas mãos dos funcionários públicos da ciência. Portugal inventou essa figura paradoxal do que seria a nacionalização de um património científico universal feito por empresas privadas.
O absurdo desta falsificação da ideia de universidade só foi abafado com a alegria imbecil de muitas famílias. É que, subitamente, candidatos a professores e candidatos a alunos, todos tinham um lugar numa qualquer escola superior. Nunca o paraíso se assemelhou tanto a um enorme centro comercial recheado por Senhores Professores Doutores.
Esse golpe de Cavaco Silva contra as aristocracias republicanas que se tinham instalado nas Faculdades do Estado sustentou-se por pouco tempo. A população universitária está a desaparecer a um ritmo assustador. A pressão demográfica sobre as vagas no ensino superior esgotou-se. Esgotou-se também a ilusão das universidades privadas como um negócio infinito. Com contratos precários, foi então fácil encerrar cursos e despedir professores. Algo de semelhante se prepara para as universidades públicas. O Ministério da Ciência e Ensino Superior anunciou ir encerrar os cursos com número insuficiente de inscritos.
Os mais afectados são os dos saberes fundamentais. Mas esses Departamentos, como os de Matemática, Física, Literatura, Filosofia ou Engenharia, não descobrem só a desertificação das suas salas de aula. Por detrás dos novos golpes de teatro que se ensaiam secretamente - desta vez, não para progressão mas para expulsão da carreira - tornou-se evidente um novo vazio. Com a urgência em captar novos alunos, os Departamentos universitários estão dispostos a tudo. Até a modificar a sua natureza mais própria. Cursos de Matemática que cada vez mais se confundem com introduções à Informática, cursos de Literatura que se mascaram em ensino de Comunicação, ou cursos de Filosofia que oferecem licenciaturas em Ciência política e Relações internacionais.
O vazio que as nossas universidades foram desenhando à sua volta, entretidas com a sua perpetuação, instala-se agora no interior das suas paredes. Corrompe as almas e os saberes. Descartamo-nos da Matemática, da Literatura e da Filosofia, só para continuarmos a ser pagos pela tarefa de alimentar o país com mais licenciados.
Portugal é o único país do mundo onde os candidatos à presidência da República exibem, como troféus, os seus títulos académicos. Francisco Louçã, e apenas para sublinhar um estilo juvenil, deixou cair os seus como quem tira a gravata. Daqui a 20 anos a campanha presidencial será ainda e sempre disputada entre Professores e Doutores. Resta saber se serão especialistas em informática, em ciências da comunicação ou em relações internacionais. Mas, deste modo - com as universidades vazias, isto é, sem comunidade de investigadores com que se renovem, e sem património de conhecimentos que reinventem - a universidade existirá ainda?